{"id":57725,"date":"2020-02-05T09:26:07","date_gmt":"2020-02-05T12:26:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.remanso-noticias.com\/?p=57725"},"modified":"2020-02-05T09:26:07","modified_gmt":"2020-02-05T12:26:07","slug":"pequenos-agricultores-sao-proibidos-de-usar-agua-do-velho-chico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.remanso-noticias.com\/?p=57725","title":{"rendered":"Pequenos agricultores s\u00e3o proibidos de usar \u00e1gua do Velho Chico"},"content":{"rendered":"<p>O jornal O Estado de S\u00e3o Paulo come\u00e7ou, no dia 02 Fevereiro 2020, dia de Iemanj\u00e1, a S\u00e9rie de reportagens especiais com o t\u00edtulo &#8220;Guerra das \u00c1guas, Sede Escassez e Mortes no Interior do Brasil. O texto de Patrik Camporez, fotos e v\u00eddeos de Dida Sampaio.<\/p>\n<p>A reportagem mostra a desigualdade entre ricos e pobres nas margens do Rio S\u00e3o Francisco nos canais de irriga\u00e7\u00e3o. Segundo a informa\u00e7\u00e3o os \u201cvigias da \u00e1gua\u201d usam drones, tr\u00eas moto-patrulhas e uma viatura caracterizada para evitar a retirada de \u00e1gua de antigos canais do Rio S\u00e3o Francisco, 24 horas por dia. <\/p>\n<p>A criminaliza\u00e7\u00e3o de quem n\u00e3o tem \u00e1gua \u00e9 um drama a mais no semi\u00e1rido.  Os vigias trabalham para uma firma de seguran\u00e7a que presta servi\u00e7o \u00e0 empresa Distrito de Irriga\u00e7\u00e3o Nilo Coelho (Dinc), uma terceirizada da estatal Companhia de Desenvolvimento dos Vales do S\u00e3o Francisco e Parna\u00edba (Codevasf). Os canais proibidos para boa parte dos moradores e sitiantes foram constru\u00eddos ainda nos anos 1980 e 1990 para irrigar, especialmente, plantios de frutas para exporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A equipe de reportagem estava pr\u00f3xima do canal, em Petrolina, quando testemunhou o momento em que um morador se aproximou do curso com um balde e um barril, olhou para os lados e, mesmo demonstrando medo, tirou a \u00e1gua dali. Era Cosme Angelo, 26 anos, que dividiria o barril com 20 vizinhos.<\/p>\n<p>Cosme se queixou de que a mesma \u00e1gua dispon\u00edvel \u00e0 irriga\u00e7\u00e3o \u00e9 proibida para os moradores. \u201c\u00c9 uma luta di\u00e1ria. Se eu for pegar \u00e1gua direto no rio, tenho que buscar a mais de 20 quil\u00f4metros, nas costas. Ent\u00e3o, prefiro correr o risco de me verem e chamarem os vigias da \u00e1gua para fazer a ocorr\u00eancia\u201d, desabafou, ofegante.<\/p>\n<p>Confiram reportagem Jornal Estad\u00e3o. O texto de Patrik Camporez e fotos e v\u00eddeos de Dida Sampaio.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos cinco anos, 63 mil boletins de ocorr\u00eancia foram abertos em delegacias do Pa\u00eds por causa de brigas por \u00e1gua. \u00c9 o que mostra levantamento in\u00e9dito do Estado. As desaven\u00e7as envolvem hidrel\u00e9tricas, companhias de abastecimento, comunidades tradicionais, fazendas, pequenas propriedades e ind\u00fastrias. H\u00e1 duelos tamb\u00e9m entre Estados \u2013 S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, se enfrentam no STF pelo Rio Para\u00edba do Sul.<\/p>\n<p>Para detalhar esses conflitos, Patrik Camporez e Dida Sampaio percorreram \u00e1reas do Amazonas, Bahia, Goi\u00e1s, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas, Par\u00e1, Para\u00edba, Pernambuco, S\u00e3o Paulo, Tocantins e Distrito Federal. E encontraram de po\u00e7os guardados pelo Ex\u00e9rcito a lagos vigiados por escolta armada e canal cercado por muro.<\/p>\n<p>\u00c9 mais um tempo de tens\u00e3o e sede no semi\u00e1rido. Numa sala de 40 metros quadrados, decorada com monitores de alta resolu\u00e7\u00e3o em um pr\u00e9dio no interior de Petrolina, em Pernambuco, o vigilante Fl\u00e1vio Silva tem uma vis\u00e3o ampla dos canais. Ele e outros sete colegas contam, ainda, com um drone, tr\u00eas moto-patrulhas e uma viatura caracterizada para evitar a retirada de \u00e1gua de antigos canais do Rio S\u00e3o Francisco, 24 horas por dia. A fiscaliza\u00e7\u00e3o irrita os sertanejos que n\u00e3o conseguem pagar licen\u00e7a de cerca de R$ 3 mil para abastecer seus s\u00edtios e casas.<\/p>\n<p>Os \u201cvigias da \u00e1gua\u201d trabalham para uma firma de seguran\u00e7a que presta servi\u00e7o \u00e0 empresa Distrito de Irriga\u00e7\u00e3o Nilo Coelho (Dinc), uma terceirizada da estatal Companhia de Desenvolvimento dos Vales do S\u00e3o Francisco e Parna\u00edba (Codevasf). Os canais proibidos para boa parte dos moradores e sitiantes foram constru\u00eddos ainda nos anos 1980 e 1990 para irrigar, especialmente, plantios de frutas para exporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo indica que, a partir da entrega da nova transposi\u00e7\u00e3o do rio, iniciada em 2007, as regras de distribui\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m sejam proibitivas para os pequenos produtores. A preocupa\u00e7\u00e3o tornou-se real com a decis\u00e3o de prefeitos e governos estaduais de deslocarem vigilantes e policiais militares para os eixos, com o objetivo de vigiar onde a \u00e1gua come\u00e7a a correr. O governo tem dado prioridade ao abastecimento humano e ainda n\u00e3o definiu como ser\u00e1 a partilha para a irriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto isso, os sertanejos se arriscam em retiradas clandestinas, numa disputa silenciosa com a firma terceirizada pela empresa Dinc. \u201cNossa presen\u00e7a intimida, mesmo a gente n\u00e3o sendo pol\u00edcia\u201d, disse o vigilante Fl\u00e1vio.<\/p>\n<p>A criminaliza\u00e7\u00e3o de quem n\u00e3o tem \u00e1gua \u00e9 um drama a mais no semi\u00e1rido. A equipe de reportagem estava pr\u00f3xima do canal, em Petrolina, quando testemunhou o momento em que um morador se aproximou do curso comp um balde e um barril, olhou para os lados e, mesmo demonstrando medo, tirou a \u00e1gua dali. Era Cosme Angelo, 26 anos, que dividiria o barril com 20 vizinhos.<\/p>\n<p>Cosme se queixou de que a mesma \u00e1gua dispon\u00edvel \u00e0 irriga\u00e7\u00e3o \u00e9 proibida para os moradores. \u201c\u00c9 uma luta di\u00e1ria. Se eu for pegar \u00e1gua direto no rio, tenho que buscar a mais de 20 quil\u00f4metros, nas costas. Ent\u00e3o, prefiro correr o risco de me verem e chamarem os vigias da \u00e1gua para fazer a ocorr\u00eancia\u201d, desabafou, ofegante.<\/p>\n<p>Plantador de manga na zona rural de Petrolina, Francisco das Chagas Ferreira Garcia, o Tico Vaqueiro, migrou com a fam\u00edlia de Exu para Petrolina h\u00e1 23 anos.<\/p>\n<p>A migra\u00e7\u00e3o no rumo do rio provocou incha\u00e7o populacional e acirrou as disputas por \u00e1gua na \u00e1rea onde os exportadores de frutas se instalavam. O projeto do Distrito de Irriga\u00e7\u00e3o Nilo Coelho \u00e9 administrado pela Codevasf. Tico Vaqueiro, 54 anos, s\u00f3 planta em metade dos 20 hectares de sua propriedade, pois n\u00e3o consegue elevar a conta de \u00e1gua, que j\u00e1 chega a R$ 4 mil. \u201cAs empresas conversam direto com o governo e conseguem mais \u00e1gua. Por outro lado, se um pequeno furar um cano e colocar uma bomba-sapo, vai preso\u201d, disse.<\/p>\n<p>O casal Rosa Maria dos Santos Landin, de 54 anos, e Jos\u00e9 Pedro Landin, de 56, n\u00e3o sabe de onde vai tirar \u00e1gua para matar a sede de 360 cabras. A menos de cem metros do s\u00edtio deles passa o Eixo Norte da nova transposi\u00e7\u00e3o. O canal foi inaugurado no fim do governo Michel Temer, mas a \u00e1gua n\u00e3o atingiu volume para ser distribu\u00edda.<\/p>\n<p>A obra ainda depende de esta\u00e7\u00f5es de bombeamento e finaliza\u00e7\u00f5es dos reservat\u00f3rios. Rosa e Jos\u00e9 acreditaram que a \u00e1gua chegaria logo e investiram em plantio de lavoura e cria\u00e7\u00e3o de cabras. Perderam dinheiro. Para manter os animais, a fam\u00edlia sai em busca de garoba, uma planta que cont\u00e9m \u00e1gua.<\/p>\n<p>De volta ao s\u00edtio, Rosa e Jos\u00e9 come\u00e7aram a contagem das cabe\u00e7as. Animais n\u00e3o t\u00eam retornado. Com o desmatamento da Caatinga, on\u00e7as se aproximaram \u00e0 procura de presas dom\u00e9sticas.<\/p>\n<p>Como bichos t\u00eam ca\u00eddo no canal, de cinco metros de profundidade, e moradores e produtores retiram \u00e1gua sem autoriza\u00e7\u00e3o, o governo construiu um muro para impedir o acesso. \u201cA \u00e1gua fica pertinho e n\u00e3o podemos tirar. Agora, fizeram essa parede a\u00ed\u201d, reclamou Rosa. \u201cPara a gente tomar banho, lavar roupa, saciar as cabras, tinha que ser essa a\u00ed mesmo. Com o muro, nem essa temos. Meu Deus do C\u00e9u!\u201d<\/p>\n<p>O pequeno produtor Jo\u00e3o de Deus Gon\u00e7alves, de 65 anos, costuma conferir, todos os dias, se a obra foi retomada. \u201cN\u00e3o tenho esperan\u00e7a de que a transposi\u00e7\u00e3o v\u00e1 funcionar. Ela anda um pouco para frente e se deteriora para tr\u00e1s\u201d, disse. \u201cSempre tem bomba queimando, erro de engenharia.\u201d<\/p>\n<p>O Eixo Norte da transposi\u00e7\u00e3o era para levar \u00e1gua de Cabrob\u00f3 at\u00e9 o Cear\u00e1 e o Rio Grande do Norte. A \u00e1gua, por\u00e9m, n\u00e3o passou de Pernambuco \u2013 o ministro do Desenvolvimento Regional, Gustavo Canuto, prometeu que isso ocorrer\u00e1 em breve. Jo\u00e3o de Deus testemunhou cada passo da obra, desde as primeiras \u201cpicadas\u201d abertas no mato durante o governo Fernando Henrique Cardoso.<\/p>\n<p>A nova transposi\u00e7\u00e3o do Velho Chico foi licitada por R$ 4,5 bilh\u00f5es, mas j\u00e1 consumiu, em 13 anos, R$ 10,8 bilh\u00f5es. O governo Lula estimou que a conclus\u00e3o dos dois eixos, Norte e Leste, ocorreria em 2012.<\/p>\n<p>Agora, a gest\u00e3o de Jair Bolsonaro promete finalizar a obra at\u00e9 o fim do mandato. No ano passado, o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Regional aplicou R$ 1,3 bilh\u00e3o no projeto, com investimentos na manuten\u00e7\u00e3o e na pr\u00e9-opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Reda redeGN com informa\u00e7\u00e3o Jornal O Estad\u00e3o. Foto: Ilustrativa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornal O Estado de S\u00e3o Paulo come\u00e7ou, no dia 02 Fevereiro 2020, dia de Iemanj\u00e1, a S\u00e9rie de reportagens especiais com o t\u00edtulo &#8220;Guerra das \u00c1guas, Sede Escassez e Mortes no Interior do Brasil. O texto de Patrik Camporez, fotos e v\u00eddeos de Dida Sampaio. 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